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Para onde foram os trens do Brasil?

O trem do Brasil não perdeu para o tamanho do mapa; perdeu para escolhas que se somaram ao longo de um século, e o que sobrou dele se especializou no minério e no grão.

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Acostamento da estrada

Abertura

Numa segunda-feira de maio, os caminhoneiros desligaram o motor no acostamento. Em poucos dias faltou combustível, a ração não chegou às granjas e o leite foi jogado fora: cerca de 280 milhões de litros nos cinco primeiros dias da paralisação de 2018⁠Fonte 1 · 2018Nos cinco primeiros dias da greve de 2018, os grandes laticínios pararam a coleta e cerca de 280 milhões de litros de leite foram descartados, segundo a CNA.FGV Agro / CNAabrir a fontever na lista. Um país do tamanho de um continente parou porque o caminhão parou.

Ilustração de uma rodovia reta ao amanhecer: uma fila longa de caminhões parados no acostamento, com os motores desligados e as duas pistas vazias; ao lado, uma ferrovia antiga atravessa o pasto sem nenhum trem.
Os caminhões param no acostamento. Ao lado, a ferrovia também está parada, e sem trem.

E o Brasil já teve muito mais trem. Em 1960, eram cerca de 38 mil quilômetros de trilho com trem passando⁠Fonte 2 · 1960A malha ferroviária em tráfego no Brasil chegou ao máximo em 1960, com cerca de 38 mil quilômetros.IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista, quase uma volta ao mundo⁠Fonte 3 · 1960Os trilhos em tráfego de 1960, enfileirados, dariam quase uma volta ao mundo: cerca de 96% da linha do Equador.IBGE; NASAabrir a fontever na lista. Em 2022, o trem passou em só perto de metade disso⁠Fonte 4 · 2022Pela conta do dossiê com os números do TCU, só cerca de 19,4 mil km de trilho tiveram algum trem em 2022, perto de metade da malha de 1960 (cálculo: 30,5 mil km x 63,7%).TCUabrir a fontever na lista.

Para onde foram os trens do Brasil?

Sorriso (MT)

Quase tudo de caminhão

Quem vive de frete sabe o que é um caminhão parado; quem não vive paga o frete no preço da comida. A greve travou o país porque cerca de 68% de tudo o que o Brasil transporta vai de caminhão, medido em tonelada-quilômetro⁠Fonte 5 · 2021No Brasil, cerca de 68% da carga (medida em tonelada-quilômetro) anda de caminhão.Infra S.A.abrir a fontever na lista. De trem, só 15,5%⁠Fonte 6 · 2021O trem leva cerca de 15,5% da carga do país em tonelada-quilômetro.Infra S.A.abrir a fontever na lista.

Como a carga anda no Brasil

Fatia de cada meio no que o país transporta, em tonelada-quilômetro, estimativa de 2021

  • Caminhão68,2%
  • Trem15,5%

Fontes:⁠Fonte 5 · 2021No Brasil, cerca de 68% da carga (medida em tonelada-quilômetro) anda de caminhão.Infra S.A.abrir a fontever na lista⁠Fonte 6 · 2021O trem leva cerca de 15,5% da carga do país em tonelada-quilômetro.Infra S.A.abrir a fontever na lista

Ilustração de um carrinho de supermercado parado no meio de uma rodovia vazia, sobre a faixa pintada, com arroz, feijão, óleo, café, ovos e bananas; ao fundo, um caminhão graneleiro se aproxima.
O frete viaja escondido no preço do arroz, do óleo e do café.

Muito desse trem nem sumiu: foi parar num lugar que pouca gente imagina. Até lá, vale seguir um caminhão de soja de Sorriso, em Mato Grosso, ao porto de Santos: 1.961 quilômetros de estrada⁠Fonte 7 · 2026De caminhão, Sorriso fica a 1.961 km do porto de Santos.Conababrir a fontever na lista.

O mapa desta história

A viagem do caminhão de Sorriso a Santos, a ferrovia que começa em Rondonópolis, a saída pelo norte e o minério que ficou com o trem.

EquadorTrópico de CapricórnioMTSorriso (MT)Rondonópolis (MT)Santos (SP)Miritituba (PA)minério de Carajás (PA)de caminhãode trempelo nortesoja saiminério saiEquadorTrópico de CapricórnioMTSorriso (MT)RondonópolisSantos (SP)Miritituba (PA)Carajás (PA)

De caminhão: Sorriso fica a 1.961 km de Santos e a 1.076 km de Miritituba⁠Fonte 7 · 2026De caminhão, Sorriso fica a 1.961 km do porto de Santos.Conababrir a fontever na lista⁠Fonte 8 · 2026De Sorriso a Miritituba, pela BR-163, são 1.076 km.Conababrir a fontever na lista. Traçados aproximados; mapa feito em código a partir dos estados do IBGE.

Um posto em Mato Grosso

Os suspeitos

Primeiro suspeito: o tamanho. Os Estados Unidos têm área parecida com a nossa e cerca de 294 mil quilômetros de ferrovia⁠Fonte 9 · 2023Os Estados Unidos, com área parecida com a do Brasil, têm cerca de 294 mil quilômetros de ferrovia.Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista. O Brasil tem uns 31 mil⁠Fonte 10 · 2023O Brasil tem cerca de 31 mil quilômetros de ferrovia, contando trechos em operação e desativados.Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista, contando trilho onde não passa mais trem nenhum.

Território parecido, trilho bem diferente

Extensão das ferrovias, em quilômetros, 2023

  • Estados Unidos294 mil km
  • Brasilcom trechos sem trem31 mil km

Fontes:⁠Fonte 9 · 2023Os Estados Unidos, com área parecida com a do Brasil, têm cerca de 294 mil quilômetros de ferrovia.Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista⁠Fonte 10 · 2023O Brasil tem cerca de 31 mil quilômetros de ferrovia, contando trechos em operação e desativados.Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista

Na Rússia, 81% da carga vai de trem, sem contar os dutos⁠Fonte 11 · 2024Na Rússia, 81% da carga anda de trem (conta sem os dutos).Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista. Perto da costa, em viagem curta, o caminhão ganha em qualquer país, mas isso não explica um trilho tão menor. O tamanho tem álibi.

O suspeito de sempre, Juscelino Kubitschek e as fábricas de carro, também tem: o Plano de Metas fez cerca de 1.200 quilômetros de linha de trem nova até janeiro de 1959, pelas contas do próprio Juscelino⁠Fonte 12 · 1959Pelas contas do próprio Juscelino, em janeiro de 1959 o Plano de Metas já tinha feito cerca de 1.200 km de linhas de trem novas (a meta era 1.500 km).Presidência da Repúblicaabrir a fontever na lista. O segundo suspeito é o dinheiro.

Ilustração de um posto de beira de estrada em Mato Grosso: uma carreta graneleira abastece numa bomba de diesel sob a cobertura, com lavouras de soja dos dois lados da rodovia.
A pista estava na bomba: o imposto de cada litro ajudava a pagar a próxima estrada.

“Governar é abrir estradas” foi o lema de campanha de Washington Luís em 1920⁠Fonte 13 · 1920"Governar é abrir estradas" foi o lema de Washington Luís na campanha de 1920 ao governo de São Paulo; ele ganhou o apelido de "Estradeiro".Museu Republicano (USP)abrir a fontever na lista. Mas quem pagava? A pista está na bomba onde o caminhão de Sorriso enche o tanque. Em 1964, uma lei mandou para a estrada 89% da parte do imposto do combustível que cabia à União, aos estados e aos municípios, e só 11% para a Rede Ferroviária Federal⁠Fonte 14 · 1964Pela lei de 1964, 89% da parte do imposto sobre combustíveis que ia para União, estados e municípios tinha de ir para estradas, pelo Fundo Rodoviário Nacional.Lei 4.452/1964abrir a fontever na lista⁠Fonte 15 · 1964Pela mesma lei de 1964, só 11% dessa parte do imposto sobre combustíveis ia para a Rede Ferroviária Federal.Lei 4.452/1964abrir a fontever na lista. Cada tanque cheio pagava a próxima estrada; o trem ficava com o troco.

Para onde ia o imposto do combustível

Parte da União, dos estados e dos municípios, pela lei de 1964

  • Estradas89%
  • Rede Ferroviária Federal11%

Fontes:⁠Fonte 14 · 1964Pela lei de 1964, 89% da parte do imposto sobre combustíveis que ia para União, estados e municípios tinha de ir para estradas, pelo Fundo Rodoviário Nacional.Lei 4.452/1964abrir a fontever na lista⁠Fonte 15 · 1964Pela mesma lei de 1964, só 11% dessa parte do imposto sobre combustíveis ia para a Rede Ferroviária Federal.Lei 4.452/1964abrir a fontever na lista

Em 1966, um decreto listou ramais que davam prejuízo, como o de Niterói a Cabo Frio, para virar estrada⁠Fonte 16 · 1966Um decreto de maio de 1966 listou cerca de 6,3 mil km de ferrovias e ramais antieconômicos para serem suprimidos e trocados por rodovias.Decreto 58.341/1966abrir a fontever na lista. Muitos eram mesmo cheios de curva e de pouco movimento. Até 1974, foram arrancados 7.500 quilômetros de trilho⁠Fonte 17 · 1974Até 1974, 7.500 km de ferrovias tinham sido erradicados.Min. Transportesabrir a fontever na lista, e no lugar vieram só 1.770 de estrada, quase toda de terra⁠Fonte 18 · 1974No lugar desses 7.500 km de trilho, só 1.770 km de rodovias substitutas tinham sido construídos até 1974.Min. Transportesabrir a fontever na lista.

O trilho que saiu e a estrada que veio

Ramais trocados por estrada até 1974, em quilômetros

  • Trilho arrancado7.500 km
  • Estrada no lugar1.770 km
  • Estrada asfaltadadessa estrada nova111 km

Fontes:⁠Fonte 17 · 1974Até 1974, 7.500 km de ferrovias tinham sido erradicados.Min. Transportesabrir a fontever na lista⁠Fonte 18 · 1974No lugar desses 7.500 km de trilho, só 1.770 km de rodovias substitutas tinham sido construídos até 1974.Min. Transportesabrir a fontever na lista⁠Fonte 19 · 1974Das rodovias que substituíram os ramais até 1974, só 111 km eram asfaltados.Min. Transportesabrir a fontever na lista

Ilustração de uma linha de trem antiga tomada pelo capim: os trilhos acabam, o último dobrado para cima, e o mesmo leito segue como uma estrada de terra esburacada pelos morros.
Onde o trilho foi arrancado, o que veio no lugar muitas vezes foi chão batido.

Primeira resposta: parte dos trens foi arrancada de propósito, e a estrada prometida mal chegou. Mas tem trilho que ninguém arrancou e onde também não passa trem.

Serra dos Carajás (PA)

A rede que nunca existiu

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União mostrou que, em 2022, 36,3% da malha não viu trem nenhum⁠Fonte 20 · 2022Mais de um terço da malha ferroviária (36,3%) não teve nenhum trem passando em 2022.TCUabrir a fontever na lista. O trilho ficou; quem foi embora foi o trem.

Ilustração de uma pequena estação de trem do interior, com a pintura descascada, o relógio parado sob a cobertura da plataforma e capim crescendo entre os dormentes.
O prédio continua de pé, o relógio parou e o trem não passa mais.

Quando a malha federal passou para empresas, em leilões a partir de 1996, o contrato era de carga⁠Fonte 21 · 1996Em 1996 começaram os leilões que passaram a malha da RFFSA, dividida em malhas regionais, para concessionárias privadas por 30 anos.ANTT / EPLabrir a fontever na lista: onde havia minério e grão, o trem continuou; o resto parou.

Para onde foram os trens, então? Para a mina.

O trem que sobrou leva, acima de tudo, pedra de ferro, das serras de Minas e do Pará direto para o navio: de cada 100 toneladas que andam de trem no Brasil, 72 são minério de ferro⁠Fonte 22 · 2025De cada 100 toneladas que andam de trem no Brasil, 72 são minério de ferro.ANTTabrir a fontever na lista.

Só que, bem antes do decreto, em 1953, a estrada já levava 53,6% da carga do país, e o trem só 21,7%⁠Fonte 23 · 1953Já em 1953, a estrada levava mais da metade da carga do país (53,6%).IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista⁠Fonte 24 · 1953Em 1953, a ferrovia levava só 21,7% da carga do país.IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista. O decreto enterrou um trem que já estava doente.

Antes do decreto

Fatia da carga do país, 1953

  • Estrada53,6%
  • Trem21,7%

Fontes:⁠Fonte 23 · 1953Já em 1953, a estrada levava mais da metade da carga do país (53,6%).IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista⁠Fonte 24 · 1953Em 1953, a ferrovia levava só 21,7% da carga do país.IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista

Ilustração do interior do Brasil nos anos cinquenta: um comboio de caminhões carregados de sacos e caixotes levanta poeira numa estrada de terra, ao lado de um pequeno trem a vapor com os vagões quase vazios.
Nos anos cinquenta, a estrada já levava mais carga que o trilho.

Doente de quê? Do terceiro suspeito: a rede que nunca existiu. As linhas nasceram para levar café e outros produtos do interior até o porto, cada uma no seu caminho⁠Fonte 25 · 1960As ferrovias brasileiras foram traçadas quase todas do interior para o porto, para levar café, borracha e outros produtos de exportação; não formaram uma rede nacional, só trechos isolados e redes regionais com poucos pontos de ligação.IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista, como uma espinha de peixe sem a coluna do meio.

E cada uma escolheu a sua bitola: onde duas se encontram, o trem para e a carga muda de vagão. Imagine isso com uma safra inteira.

Pense num WhatsApp em que só você tem conta: não serve para nada. Com ferrovia é igual: linha solta vive de uma carga só e morre com ela.

Pela régua da CNT, a confederação do transporte, o trem ganha do caminhão acima de uns 800 quilômetros e com carga pesada⁠Fonte 26 · 2025O trem só ganha do caminhão em viagens longas, acima de uns 800 km, e com carga pesada; até uns 320 km, o caminhão domina.Infra S.A. / CNTabrir a fontever na lista. A viagem de Sorriso é longa, vai cheia de soja e tem uma ferrovia no meio do caminho.

Rondonópolis (MT)

A conta do caminhão

Em Rondonópolis, ainda em Mato Grosso, começa uma ferrovia que vai até Santos. O caminhão passa reto.

De caminhão, de Rondonópolis a Santos, a tonelada pagava R$ 390 em agosto de 2026⁠Fonte 27 · 2026De caminhão, o trecho Rondonópolis (MT) - Santos, o mesmo que a ferrovia faz, custava R$ 390 por tonelada em agosto de 2026.Conababrir a fontever na lista. De trem, a carga agrícola que chegou a Santos pagou em média R$ 202 em 2024⁠Fonte 28 · 2024De trem, a carga agrícola que chegou a Santos pagou em média R$ 202 por tonelada em 2024 (tarifa mais operações acessórias, valor nominal).ANTTabrir a fontever na lista. A média do trem é mais antiga e inclui viagens mais curtas, e nenhum valor desconta a inflação, mas o trem sai mais barato.

Então por que tão pouca soja sobe no vagão? Em 2025, o trem tirou de Mato Grosso cerca de 23 milhões de toneladas de soja, farelo e milho⁠Fonte 29 · 2025Em 2025, o trem tirou de Mato Grosso cerca de 23 milhões de toneladas de soja, farelo e milho.ANTTabrir a fontever na lista, pouco mais de um quinto dos 104,5 milhões de toneladas de soja e milho colhidos no estado⁠Fonte 30 · 2025Mato Grosso colheu cerca de 104 milhões de toneladas de soja e milho em 2025; o trem levou pouco mais de um quinto disso.IBGEabrir a fontever na lista.

O grão de Mato Grosso e o trem

Em milhões de toneladas, 2025

  • Soja e milho colhidos104,5 mi t
  • Grão que saiu de tremsoja, farelo e milho23,0 mi t

Fontes:⁠Fonte 30 · 2025Mato Grosso colheu cerca de 104 milhões de toneladas de soja e milho em 2025; o trem levou pouco mais de um quinto disso.IBGEabrir a fontever na lista⁠Fonte 29 · 2025Em 2025, o trem tirou de Mato Grosso cerca de 23 milhões de toneladas de soja, farelo e milho.ANTTabrir a fontever na lista

Ilustração de um terminal de grãos no planalto de Mato Grosso: uma carreta despeja soja no poço de recepção, ao lado de um trem de vagões azuis, enquanto outros caminhões seguem pela rodovia sem entrar.
Para quem planta em Sorriso, o trilho começa centenas de quilômetros depois, e é uma linha só: o WhatsApp com um amigo só.

Parte da safra vai pelo norte, de caminhão pela Cuiabá-Santarém até Miritituba, no Pará, a 1.076 quilômetros de Sorriso⁠Fonte 8 · 2026De Sorriso a Miritituba, pela BR-163, são 1.076 km.Conababrir a fontever na lista, e desce o rio Tapajós de barcaça: ali, quem faz o papel do trem é o rio.

Trazer o trem de volta demora. A Ferrogrão, planejada de Sinop (MT) a Miritituba, cruza uma faixa do Parque Nacional do Jamanxim; em maio de 2026, o Supremo Tribunal Federal validou a lei que abriu essa faixa, mas a obra ainda depende de licença ambiental⁠Fonte 31 · 2026Em maio de 2026, o STF declarou constitucional a lei de 2017 que tirou uma faixa do Parque Nacional do Jamanxim para a Ferrogrão; a obra ainda depende de licenciamento ambiental.STFabrir a fontever na lista. O Tribunal de Contas da União diz que ela baixaria o frete; o Ministério Público Federal e organizações indígenas pedem que os povos da região sejam ouvidos antes.

Mesmo quando a obra anda rápido, leva tempo: a ferrovia estadual de Mato Grosso levou três anos e meio para entregar os primeiros 162 quilômetros, em junho de 2026⁠Fonte 32 · 2026A primeira ferrovia autorizada por um estado, em Mato Grosso, entregou seus primeiros 162 km, de Rondonópolis a Dom Aquino, em junho de 2026, três anos e meio depois do início das obras.Rumo / ALMTabrir a fontever na lista. O Brasil errou ao trocar o trem pela estrada?

Porto de Santos (SP)

Não foi o mapa, foram escolhas

Errou, sim, por um século, governo atrás de governo: deixou cada linha nascer sozinha, com a sua bitola e o seu porto, e pôs quase todo o dinheiro do combustível na estrada. Arrancar ramal que dava prejuízo até fazia sentido. O problema é que o país ficou sem rede.

O trem pode voltar onde a carga é pesada, constante e viaja longe, como o minério e o grão que já desce de Rondonópolis a Santos. Desta vez, com as linhas ligadas umas às outras.

Ilustração de uma lavoura de soja colhida em Mato Grosso: uma carreta percorre uma estrada de terra curta até um pequeno terminal, onde espera um trem longo de vagões azuis que segue até o horizonte.
O caminhão faz a ponta curta, da fazenda ao trilho; o trem faz a viagem longa.

O caminhão de Sorriso chega a Santos depois de quase meio Brasil de asfalto. E ele não vai sumir: fica onde ninguém ganha dele, na ponta, da fazenda até o trilho.

Não foi o tamanho do mapa que tirou o trem do Brasil. Foram escolhas, somadas ao longo de um século.

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Fontes

Cada número do texto tem uma nota azul. Toque nela para ver de onde veio.

Lista completa, com links
  1. Nos cinco primeiros dias da greve de 2018, os grandes laticínios pararam a coleta e cerca de 280 milhões de litros de leite foram descartados, segundo a CNA.

    FGV Agro / CNA: FGV Agro, 'A greve dos caminhoneiros: origens e impactos sobre a economia brasileira' (2018), seção 5.1 Leite, citando a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil)

  2. A malha ferroviária em tráfego no Brasil chegou ao máximo em 1960, com cerca de 38 mil quilômetros.

    IBGE / Queiroz (1999): Queiroz, P. R. C. Notas sobre a experiência das ferrovias no Brasil. História Econômica & História de Empresas, v. 2, n. 1, 1999, p. 91-111 (dados de IBGE, Estatísticas Históricas do Brasil, p. 456-457)

  3. Os trilhos em tráfego de 1960, enfileirados, dariam quase uma volta ao mundo: cerca de 96% da linha do Equador.

    IBGE; NASA: Cálculo do canal: 38.287 km (malha em tráfego em 1960; IBGE. Estatísticas Históricas do Brasil. via Queiroz 1999) / 40.075 km (Equador; NASA. Earth Fact Sheet)

  4. Pela conta do dossiê com os números do TCU, só cerca de 19,4 mil km de trilho tiveram algum trem em 2022, perto de metade da malha de 1960 (cálculo: 30,5 mil km x 63,7%).

    TCU: TCU, Acórdão 2.000/2024-Plenário (TC 032.201/2023-0), auditoria do transporte ferroviário de cargas domésticas, dados de 2022 (nota de imprensa de 27/09/2024)

  5. No Brasil, cerca de 68% da carga (medida em tonelada-quilômetro) anda de caminhão.

    Infra S.A.: Infra S.A./ONTL, 'Infraestrutura de Transportes e o Impacto em Custos Logísticos' (mai/2025), Gráfico 1: divisão modal em TKU em 2021, do Plano Setorial de Transporte Rodoviário (Infra S.A. e Ministério dos Transportes), matriz 2017 expandida para 2021

  6. O trem leva cerca de 15,5% da carga do país em tonelada-quilômetro.

    Infra S.A.: Infra S.A./ONTL, 'Infraestrutura de Transportes e o Impacto em Custos Logísticos' (mai/2025), Gráfico 1 (TKU, 2021, Plano Setorial de Transporte Rodoviário)

  7. De caminhão, Sorriso fica a 1.961 km do porto de Santos.

    Conab: Conab, Boletim Logístico set/2026, Tabela 5 (distância da rota Sorriso - Santos)

  8. De Sorriso a Miritituba, pela BR-163, são 1.076 km.

    Conab: Conab, Boletim Logístico set/2026, Tabela 5 (distância da rota Sorriso - Miritituba)

  9. Os Estados Unidos, com área parecida com a do Brasil, têm cerca de 294 mil quilômetros de ferrovia.

    Infra S.A. / ANTF: Infra S.A./ONTL e ABDIB, 'Panorama do Sistema Ferroviário Brasileiro com Foco em Carga Geral' (dez/2025), Tabela 2 (extensão ferroviária, dados ANTF 2023; EUA 293,56 mil km em 9,87 milhões de km²)

  10. O Brasil tem cerca de 31 mil quilômetros de ferrovia, contando trechos em operação e desativados.

    Infra S.A. / ANTF: Infra S.A./ONTL e ABDIB, 'Panorama do Sistema Ferroviário Brasileiro com Foco em Carga Geral' (dez/2025), Tabela 2 (dados ANTF 2023; Brasil 30,81 mil km em 8,52 milhões de km², inclui trechos desativados; 3,62 km por mil km², último entre 10 países)

  11. Na Rússia, 81% da carga anda de trem (conta sem os dutos).

    Infra S.A. / ANTF: Infra S.A./ONTL e ABDIB, 'Panorama do Sistema Ferroviário Brasileiro com Foco em Carga Geral' (dez/2025), seção 2.1 e Gráfico 2, citando ANTF (2024); mesma tabela na apresentação da ANTF à Comissão de Viação e Transporte da Câmara (26/08/2025: Rússia 81% ferroviário, 8% rodoviário, 11% aquaviário e outros; fontes PNL 2035, ILOS, ANTT, CIA World Factbook)

  12. Pelas contas do próprio Juscelino, em janeiro de 1959 o Plano de Metas já tinha feito cerca de 1.200 km de linhas de trem novas (a meta era 1.500 km).

    Presidência da República: Presidência da República, Biblioteca: pronunciamento de Juscelino Kubitschek, prestação de contas no 3º aniversário do governo, 31/01/1959, parte II

  13. "Governar é abrir estradas" foi o lema de Washington Luís na campanha de 1920 ao governo de São Paulo; ele ganhou o apelido de "Estradeiro".

    Museu Republicano (USP): Museu Republicano de Itu (USP), Catálogo da Coleção Washington Luís, Itu, 2016, verbete nº 57

  14. Pela lei de 1964, 89% da parte do imposto sobre combustíveis que ia para União, estados e municípios tinha de ir para estradas, pelo Fundo Rodoviário Nacional.

    Lei 4.452/1964: Lei nº 4.452, de 5 de novembro de 1964 (imposto único sobre lubrificantes e combustíveis), art. 3º, § 2º, redação original

  15. Pela mesma lei de 1964, só 11% dessa parte do imposto sobre combustíveis ia para a Rede Ferroviária Federal.

    Lei 4.452/1964: Lei nº 4.452, de 5 de novembro de 1964 (imposto único sobre lubrificantes e combustíveis), art. 3º, § 2º, redação original

  16. Um decreto de maio de 1966 listou cerca de 6,3 mil km de ferrovias e ramais antieconômicos para serem suprimidos e trocados por rodovias.

    Decreto 58.341/1966: Decreto nº 58.341, de 3 de maio de 1966 (disciplina a erradicação de ferrovias e ramais antieconômicos), Relações I a IV do anexo

  17. Até 1974, 7.500 km de ferrovias tinham sido erradicados.

    Min. Transportes: Ministério dos Transportes, Anuário Estatístico dos Transportes 1975-76, p. 71, citado em Paula, D. A., Revista HISTEDBR On-line, n. 56, p. 193, maio 2014

  18. No lugar desses 7.500 km de trilho, só 1.770 km de rodovias substitutas tinham sido construídos até 1974.

    Min. Transportes: Ministério dos Transportes, Anuário Estatístico dos Transportes 1975-76, p. 71, citado em Paula, D. A., Revista HISTEDBR On-line, n. 56, p. 193, maio 2014

  19. Das rodovias que substituíram os ramais até 1974, só 111 km eram asfaltados.

    Min. Transportes: Ministério dos Transportes, Anuário Estatístico dos Transportes 1975-76, p. 71, citado em Paula, D. A., Revista HISTEDBR On-line, n. 56, p. 193, maio 2014

  20. Mais de um terço da malha ferroviária (36,3%) não teve nenhum trem passando em 2022.

    TCU: TCU, Acórdão 2.000/2024-Plenário (TC 032.201/2023-0), auditoria do transporte ferroviário de cargas domésticas, dados de 2022 (nota de imprensa de 27/09/2024)

  21. Em 1996 começaram os leilões que passaram a malha da RFFSA, dividida em malhas regionais, para concessionárias privadas por 30 anos.

    ANTT / EPL: EPL/ONTL, Boletim de Logística: A retomada dos investimentos ferroviários para aumentar a eficiência da matriz de transportes (dados de 2020; tabela da desestatização com fonte RFFSA e BNDES; bitolas com fonte ANTT)

  22. De cada 100 toneladas que andam de trem no Brasil, 72 são minério de ferro.

    ANTT: ANTT, dados abertos SIADE/SAFF, 'Produção Origem Destino 2025' (soma de TU de Minério de Ferro e Minério de Ferro Especial sobre o total, jan-dez/2025; cálculo próprio). Infra S.A./ONTL (Panorama dez/2025, Tabela 6) dá 72,3% em 2024

  23. Já em 1953, a estrada levava mais da metade da carga do país (53,6%).

    IBGE / Queiroz (1999): Queiroz, P. R. C. Notas sobre a experiência das ferrovias no Brasil. História Econômica & História de Empresas, v. 2, n. 1, 1999, p. 91-111 (dados de IBGE, Estatísticas Históricas do Brasil, p. 456-457)

  24. Em 1953, a ferrovia levava só 21,7% da carga do país.

    IBGE / Queiroz (1999): Queiroz, P. R. C. Notas sobre a experiência das ferrovias no Brasil. História Econômica & História de Empresas, v. 2, n. 1, 1999, p. 91-111 (dados de IBGE, Estatísticas Históricas do Brasil, p. 456-457)

  25. As ferrovias brasileiras foram traçadas quase todas do interior para o porto, para levar café, borracha e outros produtos de exportação; não formaram uma rede nacional, só trechos isolados e redes regionais com poucos pontos de ligação.

    IBGE / Queiroz (1999): Queiroz, P. R. C. Notas sobre a experiência das ferrovias no Brasil. História Econômica & História de Empresas, v. 2, n. 1, 1999, p. 91-111 (dados de IBGE, Estatísticas Históricas do Brasil, p. 456-457)

  26. O trem só ganha do caminhão em viagens longas, acima de uns 800 km, e com carga pesada; até uns 320 km, o caminhão domina.

    Infra S.A. / CNT: Infra S.A./ONTL e ABDIB, 'Panorama do Sistema Ferroviário Brasileiro com Foco em Carga Geral' (dez/2025), seção 2.1, Gráfico 1 (fonte CNT): rodoviário domina até 320 km e 13,5 t; sobreposição entre 320 e 800 km; ferroviário competitivo acima de 800 km e 27 t

  27. De caminhão, o trecho Rondonópolis (MT) - Santos, o mesmo que a ferrovia faz, custava R$ 390 por tonelada em agosto de 2026.

    Conab: Conab, Boletim Logístico set/2026, Tabela 5, rota Rondonópolis (MT) - Santos (SP), 1.429 km, ago/2026

  28. De trem, a carga agrícola que chegou a Santos pagou em média R$ 202 por tonelada em 2024 (tarifa mais operações acessórias, valor nominal).

    ANTT: ANTT/SUFER, Relatório de Tarifas e Preços de 2024 (abr/2025), seção 4.1 Setor Agrícola, Extração Vegetal e Celulose, porto de Santos: média ponderada de tarifa + operações acessórias R$ 202,21/TU (mediana R$ 213,88; R$ 176,44 por mil TKU); todas as origens

  29. Em 2025, o trem tirou de Mato Grosso cerca de 23 milhões de toneladas de soja, farelo e milho.

    ANTT: ANTT, dados abertos SIADE/SAFF, 'Produção Origem Destino 2025', filtro UF_Origem = MT e mercadorias Soja, Farelo de Soja e Grãos - Milho (Rumo Malha Norte; Rondonópolis, Alto Araguaia e Itiquira), soma de TU jan-dez/2025, cálculo próprio

  30. Mato Grosso colheu cerca de 104 milhões de toneladas de soja e milho em 2025; o trem levou pouco mais de um quinto disso.

    IBGE: IBGE, Produção Agrícola Municipal (PAM) 2025, SIDRA tabela 1612, variável 214, Mato Grosso: soja 50.175.032 t, milho 54.298.518 t

  31. Em maio de 2026, o STF declarou constitucional a lei de 2017 que tirou uma faixa do Parque Nacional do Jamanxim para a Ferrogrão; a obra ainda depende de licenciamento ambiental.

    STF: STF, notícia de 21/05/2026: ADI 6553 (PSOL) contra a Lei 13.452/2017, julgada improcedente por maioria (relator Alexandre de Moraes; divergência de Edson Fachin; voto-vista de Flávio Dino com condicionantes, sem maioria)

  32. A primeira ferrovia autorizada por um estado, em Mato Grosso, entregou seus primeiros 162 km, de Rondonópolis a Dom Aquino, em junho de 2026, três anos e meio depois do início das obras.

    Rumo / ALMT: Rumo, comunicado 'Nova ferrovia de Mato Grosso impulsiona a eficiência dos trilhos em direção ao Porto de Santos' (22/07/2026): obras desde nov/2022, comissionamento operacional em jun/2026, mais de R$ 5 bilhões, terminal de até 10 milhões de t/ano; Assembleia Legislativa de MT (23/06/2026)

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