Para onde foram os trens do Brasil?
O trem do Brasil não perdeu para o tamanho do mapa; perdeu para escolhas que se somaram ao longo de um século, e o que sobrou dele se especializou no minério e no grão.
Acostamento da estrada
Abertura
Numa segunda-feira de maio, os caminhoneiros desligaram o motor no acostamento. Em poucos dias faltou combustível, a ração não chegou às granjas e o leite foi jogado fora: cerca de 280 milhões de litros nos cinco primeiros dias da paralisação de 2018Fonte 1 · 2018Nos cinco primeiros dias da greve de 2018, os grandes laticínios pararam a coleta e cerca de 280 milhões de litros de leite foram descartados, segundo a CNA.FGV Agro / CNAabrir a fontever na lista. Um país do tamanho de um continente parou porque o caminhão parou.

E o Brasil já teve muito mais trem. Em 1960, eram cerca de 38 mil quilômetros de trilho com trem passandoFonte 2 · 1960A malha ferroviária em tráfego no Brasil chegou ao máximo em 1960, com cerca de 38 mil quilômetros.IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista, quase uma volta ao mundoFonte 3 · 1960Os trilhos em tráfego de 1960, enfileirados, dariam quase uma volta ao mundo: cerca de 96% da linha do Equador.IBGE; NASAabrir a fontever na lista. Em 2022, o trem passou em só perto de metade dissoFonte 4 · 2022Pela conta do dossiê com os números do TCU, só cerca de 19,4 mil km de trilho tiveram algum trem em 2022, perto de metade da malha de 1960 (cálculo: 30,5 mil km x 63,7%).TCUabrir a fontever na lista.
Para onde foram os trens do Brasil?
Sorriso (MT)
Quase tudo de caminhão
Quem vive de frete sabe o que é um caminhão parado; quem não vive paga o frete no preço da comida. A greve travou o país porque cerca de 68% de tudo o que o Brasil transporta vai de caminhão, medido em tonelada-quilômetroFonte 5 · 2021No Brasil, cerca de 68% da carga (medida em tonelada-quilômetro) anda de caminhão.Infra S.A.abrir a fontever na lista. De trem, só 15,5%Fonte 6 · 2021O trem leva cerca de 15,5% da carga do país em tonelada-quilômetro.Infra S.A.abrir a fontever na lista.
Como a carga anda no Brasil
Fatia de cada meio no que o país transporta, em tonelada-quilômetro, estimativa de 2021
Fontes:Fonte 5 · 2021No Brasil, cerca de 68% da carga (medida em tonelada-quilômetro) anda de caminhão.Infra S.A.abrir a fontever na listaFonte 6 · 2021O trem leva cerca de 15,5% da carga do país em tonelada-quilômetro.Infra S.A.abrir a fontever na lista

Muito desse trem nem sumiu: foi parar num lugar que pouca gente imagina. Até lá, vale seguir um caminhão de soja de Sorriso, em Mato Grosso, ao porto de Santos: 1.961 quilômetros de estradaFonte 7 · 2026De caminhão, Sorriso fica a 1.961 km do porto de Santos.Conababrir a fontever na lista.
O mapa desta história
A viagem do caminhão de Sorriso a Santos, a ferrovia que começa em Rondonópolis, a saída pelo norte e o minério que ficou com o trem.
De caminhão: Sorriso fica a 1.961 km de Santos e a 1.076 km de MirititubaFonte 7 · 2026De caminhão, Sorriso fica a 1.961 km do porto de Santos.Conababrir a fontever na listaFonte 8 · 2026De Sorriso a Miritituba, pela BR-163, são 1.076 km.Conababrir a fontever na lista. Traçados aproximados; mapa feito em código a partir dos estados do IBGE.
Um posto em Mato Grosso
Os suspeitos
Primeiro suspeito: o tamanho. Os Estados Unidos têm área parecida com a nossa e cerca de 294 mil quilômetros de ferroviaFonte 9 · 2023Os Estados Unidos, com área parecida com a do Brasil, têm cerca de 294 mil quilômetros de ferrovia.Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista. O Brasil tem uns 31 milFonte 10 · 2023O Brasil tem cerca de 31 mil quilômetros de ferrovia, contando trechos em operação e desativados.Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista, contando trilho onde não passa mais trem nenhum.
Território parecido, trilho bem diferente
Extensão das ferrovias, em quilômetros, 2023
Fontes:Fonte 9 · 2023Os Estados Unidos, com área parecida com a do Brasil, têm cerca de 294 mil quilômetros de ferrovia.Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na listaFonte 10 · 2023O Brasil tem cerca de 31 mil quilômetros de ferrovia, contando trechos em operação e desativados.Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista
Na Rússia, 81% da carga vai de trem, sem contar os dutosFonte 11 · 2024Na Rússia, 81% da carga anda de trem (conta sem os dutos).Infra S.A. / ANTFabrir a fontever na lista. Perto da costa, em viagem curta, o caminhão ganha em qualquer país, mas isso não explica um trilho tão menor. O tamanho tem álibi.
O suspeito de sempre, Juscelino Kubitschek e as fábricas de carro, também tem: o Plano de Metas fez cerca de 1.200 quilômetros de linha de trem nova até janeiro de 1959, pelas contas do próprio JuscelinoFonte 12 · 1959Pelas contas do próprio Juscelino, em janeiro de 1959 o Plano de Metas já tinha feito cerca de 1.200 km de linhas de trem novas (a meta era 1.500 km).Presidência da Repúblicaabrir a fontever na lista. O segundo suspeito é o dinheiro.

“Governar é abrir estradas” foi o lema de campanha de Washington Luís em 1920Fonte 13 · 1920"Governar é abrir estradas" foi o lema de Washington Luís na campanha de 1920 ao governo de São Paulo; ele ganhou o apelido de "Estradeiro".Museu Republicano (USP)abrir a fontever na lista. Mas quem pagava? A pista está na bomba onde o caminhão de Sorriso enche o tanque. Em 1964, uma lei mandou para a estrada 89% da parte do imposto do combustível que cabia à União, aos estados e aos municípios, e só 11% para a Rede Ferroviária FederalFonte 14 · 1964Pela lei de 1964, 89% da parte do imposto sobre combustíveis que ia para União, estados e municípios tinha de ir para estradas, pelo Fundo Rodoviário Nacional.Lei 4.452/1964abrir a fontever na listaFonte 15 · 1964Pela mesma lei de 1964, só 11% dessa parte do imposto sobre combustíveis ia para a Rede Ferroviária Federal.Lei 4.452/1964abrir a fontever na lista. Cada tanque cheio pagava a próxima estrada; o trem ficava com o troco.
Para onde ia o imposto do combustível
Parte da União, dos estados e dos municípios, pela lei de 1964
Fontes:Fonte 14 · 1964Pela lei de 1964, 89% da parte do imposto sobre combustíveis que ia para União, estados e municípios tinha de ir para estradas, pelo Fundo Rodoviário Nacional.Lei 4.452/1964abrir a fontever na listaFonte 15 · 1964Pela mesma lei de 1964, só 11% dessa parte do imposto sobre combustíveis ia para a Rede Ferroviária Federal.Lei 4.452/1964abrir a fontever na lista
Em 1966, um decreto listou ramais que davam prejuízo, como o de Niterói a Cabo Frio, para virar estradaFonte 16 · 1966Um decreto de maio de 1966 listou cerca de 6,3 mil km de ferrovias e ramais antieconômicos para serem suprimidos e trocados por rodovias.Decreto 58.341/1966abrir a fontever na lista. Muitos eram mesmo cheios de curva e de pouco movimento. Até 1974, foram arrancados 7.500 quilômetros de trilhoFonte 17 · 1974Até 1974, 7.500 km de ferrovias tinham sido erradicados.Min. Transportesabrir a fontever na lista, e no lugar vieram só 1.770 de estrada, quase toda de terraFonte 18 · 1974No lugar desses 7.500 km de trilho, só 1.770 km de rodovias substitutas tinham sido construídos até 1974.Min. Transportesabrir a fontever na lista.
O trilho que saiu e a estrada que veio
Ramais trocados por estrada até 1974, em quilômetros
Fontes:Fonte 17 · 1974Até 1974, 7.500 km de ferrovias tinham sido erradicados.Min. Transportesabrir a fontever na listaFonte 18 · 1974No lugar desses 7.500 km de trilho, só 1.770 km de rodovias substitutas tinham sido construídos até 1974.Min. Transportesabrir a fontever na listaFonte 19 · 1974Das rodovias que substituíram os ramais até 1974, só 111 km eram asfaltados.Min. Transportesabrir a fontever na lista

Primeira resposta: parte dos trens foi arrancada de propósito, e a estrada prometida mal chegou. Mas tem trilho que ninguém arrancou e onde também não passa trem.
Serra dos Carajás (PA)
A rede que nunca existiu
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União mostrou que, em 2022, 36,3% da malha não viu trem nenhumFonte 20 · 2022Mais de um terço da malha ferroviária (36,3%) não teve nenhum trem passando em 2022.TCUabrir a fontever na lista. O trilho ficou; quem foi embora foi o trem.

Quando a malha federal passou para empresas, em leilões a partir de 1996, o contrato era de cargaFonte 21 · 1996Em 1996 começaram os leilões que passaram a malha da RFFSA, dividida em malhas regionais, para concessionárias privadas por 30 anos.ANTT / EPLabrir a fontever na lista: onde havia minério e grão, o trem continuou; o resto parou.
Para onde foram os trens, então? Para a mina.
O trem que sobrou leva, acima de tudo, pedra de ferro, das serras de Minas e do Pará direto para o navio: de cada 100 toneladas que andam de trem no Brasil, 72 são minério de ferroFonte 22 · 2025De cada 100 toneladas que andam de trem no Brasil, 72 são minério de ferro.ANTTabrir a fontever na lista.
Só que, bem antes do decreto, em 1953, a estrada já levava 53,6% da carga do país, e o trem só 21,7%Fonte 23 · 1953Já em 1953, a estrada levava mais da metade da carga do país (53,6%).IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na listaFonte 24 · 1953Em 1953, a ferrovia levava só 21,7% da carga do país.IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista. O decreto enterrou um trem que já estava doente.
Antes do decreto
Fatia da carga do país, 1953
Fontes:Fonte 23 · 1953Já em 1953, a estrada levava mais da metade da carga do país (53,6%).IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na listaFonte 24 · 1953Em 1953, a ferrovia levava só 21,7% da carga do país.IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista

Doente de quê? Do terceiro suspeito: a rede que nunca existiu. As linhas nasceram para levar café e outros produtos do interior até o porto, cada uma no seu caminhoFonte 25 · 1960As ferrovias brasileiras foram traçadas quase todas do interior para o porto, para levar café, borracha e outros produtos de exportação; não formaram uma rede nacional, só trechos isolados e redes regionais com poucos pontos de ligação.IBGE / Queiroz (1999)abrir a fontever na lista, como uma espinha de peixe sem a coluna do meio.
E cada uma escolheu a sua bitola: onde duas se encontram, o trem para e a carga muda de vagão. Imagine isso com uma safra inteira.
Pense num WhatsApp em que só você tem conta: não serve para nada. Com ferrovia é igual: linha solta vive de uma carga só e morre com ela.
Pela régua da CNT, a confederação do transporte, o trem ganha do caminhão acima de uns 800 quilômetros e com carga pesadaFonte 26 · 2025O trem só ganha do caminhão em viagens longas, acima de uns 800 km, e com carga pesada; até uns 320 km, o caminhão domina.Infra S.A. / CNTabrir a fontever na lista. A viagem de Sorriso é longa, vai cheia de soja e tem uma ferrovia no meio do caminho.
Rondonópolis (MT)
A conta do caminhão
Em Rondonópolis, ainda em Mato Grosso, começa uma ferrovia que vai até Santos. O caminhão passa reto.
De caminhão, de Rondonópolis a Santos, a tonelada pagava R$ 390 em agosto de 2026Fonte 27 · 2026De caminhão, o trecho Rondonópolis (MT) - Santos, o mesmo que a ferrovia faz, custava R$ 390 por tonelada em agosto de 2026.Conababrir a fontever na lista. De trem, a carga agrícola que chegou a Santos pagou em média R$ 202 em 2024Fonte 28 · 2024De trem, a carga agrícola que chegou a Santos pagou em média R$ 202 por tonelada em 2024 (tarifa mais operações acessórias, valor nominal).ANTTabrir a fontever na lista. A média do trem é mais antiga e inclui viagens mais curtas, e nenhum valor desconta a inflação, mas o trem sai mais barato.
Então por que tão pouca soja sobe no vagão? Em 2025, o trem tirou de Mato Grosso cerca de 23 milhões de toneladas de soja, farelo e milhoFonte 29 · 2025Em 2025, o trem tirou de Mato Grosso cerca de 23 milhões de toneladas de soja, farelo e milho.ANTTabrir a fontever na lista, pouco mais de um quinto dos 104,5 milhões de toneladas de soja e milho colhidos no estadoFonte 30 · 2025Mato Grosso colheu cerca de 104 milhões de toneladas de soja e milho em 2025; o trem levou pouco mais de um quinto disso.IBGEabrir a fontever na lista.
O grão de Mato Grosso e o trem
Em milhões de toneladas, 2025
Fontes:Fonte 30 · 2025Mato Grosso colheu cerca de 104 milhões de toneladas de soja e milho em 2025; o trem levou pouco mais de um quinto disso.IBGEabrir a fontever na listaFonte 29 · 2025Em 2025, o trem tirou de Mato Grosso cerca de 23 milhões de toneladas de soja, farelo e milho.ANTTabrir a fontever na lista

Parte da safra vai pelo norte, de caminhão pela Cuiabá-Santarém até Miritituba, no Pará, a 1.076 quilômetros de SorrisoFonte 8 · 2026De Sorriso a Miritituba, pela BR-163, são 1.076 km.Conababrir a fontever na lista, e desce o rio Tapajós de barcaça: ali, quem faz o papel do trem é o rio.
Trazer o trem de volta demora. A Ferrogrão, planejada de Sinop (MT) a Miritituba, cruza uma faixa do Parque Nacional do Jamanxim; em maio de 2026, o Supremo Tribunal Federal validou a lei que abriu essa faixa, mas a obra ainda depende de licença ambientalFonte 31 · 2026Em maio de 2026, o STF declarou constitucional a lei de 2017 que tirou uma faixa do Parque Nacional do Jamanxim para a Ferrogrão; a obra ainda depende de licenciamento ambiental.STFabrir a fontever na lista. O Tribunal de Contas da União diz que ela baixaria o frete; o Ministério Público Federal e organizações indígenas pedem que os povos da região sejam ouvidos antes.
Mesmo quando a obra anda rápido, leva tempo: a ferrovia estadual de Mato Grosso levou três anos e meio para entregar os primeiros 162 quilômetros, em junho de 2026Fonte 32 · 2026A primeira ferrovia autorizada por um estado, em Mato Grosso, entregou seus primeiros 162 km, de Rondonópolis a Dom Aquino, em junho de 2026, três anos e meio depois do início das obras.Rumo / ALMTabrir a fontever na lista. O Brasil errou ao trocar o trem pela estrada?
Porto de Santos (SP)
Não foi o mapa, foram escolhas
Errou, sim, por um século, governo atrás de governo: deixou cada linha nascer sozinha, com a sua bitola e o seu porto, e pôs quase todo o dinheiro do combustível na estrada. Arrancar ramal que dava prejuízo até fazia sentido. O problema é que o país ficou sem rede.
O trem pode voltar onde a carga é pesada, constante e viaja longe, como o minério e o grão que já desce de Rondonópolis a Santos. Desta vez, com as linhas ligadas umas às outras.

O caminhão de Sorriso chega a Santos depois de quase meio Brasil de asfalto. E ele não vai sumir: fica onde ninguém ganha dele, na ponta, da fazenda até o trilho.
Não foi o tamanho do mapa que tirou o trem do Brasil. Foram escolhas, somadas ao longo de um século.





